Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 21 de julho de 2017

José Saramago e suas personagens

                                                            I
Um levantamento de 354 protagonistas e figurantes – praticamente, todos – que perpassam os romances e peças teatrais do Prêmio Nobel de Literatura de 1998 é o que o leitor vai encontrar em Dicionário de Personagens da Obra de José Saramago (Blumenau-SC: Editora da Fundação Universidade Regional de Blumenau - EdiFurb, 2012), da professora Salma Ferraz, resultado de uma pesquisa que durou mais de 15 anos e contou com a colaboração de mais de oito dezenas de seus alunos.

Obra aberta, sem a pretensão de se tornar definitiva ou completa, o livro, além de homenagear Saramago, segundo a autora, tem o objetivo de não só catalogar a imensa galeria de personagens saramaguianos como abrir um debate e até mesmo aceitar novos verbetes para uma futura segunda edição. Mas, desde já, constitui, sem dúvida, leitura indispensável aos amantes da boa literatura de Saramago.

Da pesquisa, ficaram de fora os contos e crônicas da primeira fase de Saramago, ainda que o romance Terra do Pecado (1947), também da época inicial da trajetória do autor, tenha sido igualmente analisado. Exceção foi aberta para O Conto da Ilha desconhecida (1997), que faz parte da fase madura do escritor. Já o romance Claraboia, embora escrito em 1953, e, portanto, da primeira fase, mas publicado em 2011 pela editora Companhia das Letras, de São Paulo, não foi incluído na pesquisa por se tratar de publicação post mortem.

Como esclarece na apresentação que escreveu para sua própria obra, a autora incluiu ainda determinados lugares que aparecem em alguns dos romances, já que “transcendem o papel de mero local em que os fatos acontecem e chegam a comportar-se como personagens importantes para o desenvolvimento do enredo”. A título de exemplo, pode-se citar o “Centro” (shopping) de A Caverna (2000), a “Conservatória Geral” e “Cemitério Geral” de Todos os Nomes (1997), o “quarto da morte” de As Intermitências da Morte (2005) e o “deserto” de Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991). Personificações como “morte” e “gadanha” de As Intermitências da Morte e instituições como “máphia” e “governo” do mesmo romance também ganharam verbetes.

Até mesmo personagens que fogem à condição humana foram contemplados, como os cães “Achado”, “Ardent”, “Tomarctus” e “Cão das Lágrimas”, que na obra de Saramago tantas vezes apresentam sentimentos e reações que nem sempre são encontrados com facilidade em homens e mulheres. Sem contar o “Elefante”, que seria a personagem principal do conto A Viagem do Elefante (2008).


                                                           II
Uma das personagens mais fascinantes dessa extensa galeria, na verdade, não saiu da cabeça de Saramago, mas do poeta Fernando Pessoa (1888-1935). Trata-se de Ricardo Reis, protagonista de O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), heterônimo pessoano, cuja “morte” foi deixada em aberto por seu idealizador. No romance de Saramago, porém, Reis tem 48 anos de idade, é solteiro, natural do Porto, graduado em medicina, vive no Rio de Janeiro auto-exilado e recebe de seu segundo criador, como diz Salma, “uma segunda vida fictícia, uma vida em trânsito, uma vida em suspenso”. Ou seja, o romancista recria um Ricardo Reis “que nunca existiu”, que acaba por se tornar, isso sim, um heterônimo saramaguiano.

“O romancista brinca com essa personagem, pois através dela transgride os limites entre realidade e ficção”, diz a dicionarista. E acrescenta: “Saramago faz com que Ricardo Reis perca características heteronímicas básicas, sendo esse o motivo pelo qual Pessoa aparece na obra para cobrá-lo. Isso o perturba, pois seu heterônimo não se envolvia com nada, vivia uma ataraxia. Reis se mantém contemplativo até a última página do livro e como um morto-vivo, ou vivo-morto, não consegue se libertar do seu criador”. Para quem não sabe, ataraxia quer dizer apatia ou ausência de paixão ou ainda ausência de inquietude.

Outra personagem fascinante – e memorável – da obra saramaguiana é Raimundo Benvindo Silva, protagonista de História do Cerco de Lisboa (1989), revisor de textos de uma editora, homem sóbrio e tímido, cinquentão, de vida sedentária, solteiro e distante de seus parentes, que, um dia, acha de transgredir as normas de seu ofício, ao colocar um não que adultera uma obra séria que trata da tomada de Lisboa no ano de 1147, na qual os portugueses teriam contado com a ajuda dos cruzados para expulsar os mouros. O livro é impresso com o erro e, quando descoberta a fraude, a editora é obrigada a anexar uma errata a cada exemplar. Com isso, o olho da rua começa a piscar para o pacato e sério revisor, responsável pelo mal-estar criado entre os donos da editora e o autor da obra.

O episódio serve para Raimundo Silva aproximar-se de Maria Sara, sua nova supervisora na editora, também objeto de verbete nesta obra. A partir daí, sua vida começa a ganhar novas cores, como diz Salma Ferraz: “Ter colocado este não no texto que revisava foi o feito mais importante de sua vida, pois a partir desse momento delineiam-se dois fatos importantes que mudarão completamente sua vida: passa a reescrever, agora como autor, a nova História do Cerco de Lisboa, e passa a viver um cerco amoroso, envolvendo-se com Maria Sara”.


                                                           III
Obviamente, os verbetes repetem, em boa parte, o que o autor deixou em sua extensa obra, mas há um que se sobressai não só por sua extensão (de seis páginas) como pela erudição da dicionarista e o seu profundo conhecimento de Teologia, o que pode ser comprovado em seu robusto currículo. É quando trata da personagem Jesus, de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, homem, porque filho de José, e divino, por ser também filho de Deus.

Salma Ferraz recorda que, “na concepção de Jesus, o divino fecunda a carne humana, como na antiga Grécia, onde os deuses desciam do Olimpo para se relacionar com os humanos, fazendo nascer os heróis, estes semideuses que nada mais eram que humanos virtuosos sob determinados aspectos”.

Para a dicionarista, Saramago, que sempre se disse materialista e ateu, escreveu um “evangelho profano, espécie de desevangelho”, procurando mostrar Jesus Cristo como um homem comum, que carregaria a culpa herdada do pai José que, para que ele vivesse, teria deixado que “outras 25 crianças inocentes fossem assassinadas”. E que se revolta contra Deus que o teria escolhido como o seu cordeiro. Ou que não se daria bem com a mãe, Maria, nem com os seus irmãos, que o teriam tomado por louco por afirmar que vira Deus. Ou ainda que teria tido um caso passional com Maria de Magdala.

Obviamente, tudo isto é questionável. Tanto que, para a dicionarista, o romancista criou um Jesus que reflete as suas próprias dúvidas. Mas, seja como for, não se pode deixar de reconhecer que, para escrever o seu Evangelho, Saramago teve de se aprofundar como poucos teólogos no conhecimento das Escrituras. Até mesmo para contestá-las ou interpretá-las ao seu modo.


                                                           IV
Salma Ferraz é graduada em Letras pelas Faculdades Integradas Hebraico Brasileira Renascença de Letras de São Paulo (1987), com mestrado em 1995 e doutorado em 2002 pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), campus de Assis. Concluiu o pós-doutoramento em Teologia e Literatura em 2008 pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi bolsista da Fundación Carolina na Universidad Autónoma de Madrid (2009). Atualmente, é professora associada de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e atua na pós- graduação, orientando projetos de pesquisa na área de Teopoética, estudos comparados entre Teologia e Literatura.

Tem experiência na área de Teologia, com ênfase no diálogo com a literatura, atuando principalmente nos seguintes temas: José Saramago, Teologia, Bíblia e Literatura, Madalena, Judas, o demoníaco na Literatura, o vampiro na Literatura, contos e criação literária. Dirige o Núcleo de Estudos Comparados entre Teologia e Literatura (Nutel), sediado na UFSC, em Florianópolis-SC. É graduanda de Teologia na Faculdade de Teologia de Santa Catarina. Realizou pós-doutoramento na UFMG em 2013. Além de ensaísta, é contista com diversos prêmios recebidos e livros publicados.

Publicou 15 livros de crítica literária, entre os quais: Sois Deuses (Edufgd, 2012), As Malasartes de Lúcifer (Eduel, 2012), O Pólen do Divino (EdiFurb, 2011), Maria Madalena: a Mulher que Amou o Amor (Eduem, 2011), Deuses em Poética (João Pessoa, UFPB, 2009), No Princípio era Deus e Ele se fez Poesia (Rio Branco: Edufac, 2007) e As faces de Deus na Obra de um Ateu: José Saramago (Juiz de Fora, Eufjf, 2004), entre outros. Na área de ficção, publicou Em Nome do Homem (Rio de Janeiro, Sette Letras, 1999); O Ateu Ambulante (Blumenau, Furb, 2001), A Ceia dos Mortos (Florianópolis, edição de autor, 2007), Nem Sempre Amar é Tudo (EdiFurb, 2012). É autora ainda de Dicionário Machista: três mil anos de frases cretinas contra as mulheres (São Paulo, Jardim dos Livros, 2013). Adelto Gonçalves - Brasil

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Dicionário de personagens da obra de José Saramago, de Salma Ferraz. Blumenau-SC: EdiFurb, 360 págs., 2012. Correio eletrônico: www.editora@furb.br


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Adelto Gonçalves é mestre em Língua e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

quinta-feira, 20 de julho de 2017

VII Olimpíadas de Matemática da CPLP


A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) atribuiu apoio institucional às VII Olimpíadas de Matemática da CPLP, a realizarem-se entre os dias 23 e 30 de julho de 2017, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. A Secretária Executiva da CPLP, Maria do Carmo Silveira, vai participar na sessão de encerramento do evento.

As olimpíadas decorreram pela primeira vez em 2011, na cidade de Coimbra, em Portugal. Nas edições seguintes, aconteceram em cinco Estados membros: em 2012, no Brasil; em 2013, em Moçambique; em 2014, em Angola; em 2015, em Cabo Verde e no ano passado, no Brasil. Trata-se de uma atividade que se destina a jovens estudantes oriundos dos países que integram a Comunidade.

A organização deste evento é da responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Matemática da CPLP e da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e conta com o apoio do Ministério da Educação de Portugal.

Esta iniciativa enquadra-se no Plano de Ação de Cooperação na Educação da CPLP, aprovada em Díli, em 2016, no objetivo 10 do Plano Estratégico de Cooperação no Domínio da Educação da CPLP, que contempla a promoção da participação ativa dos alunos dos Estados membros nas Olimpíadas da CPLP e do ensino e a aprendizagem da matemática, e ainda divulgar a informação relativa a todas as edições das Olimpíadas da Matemática da CPLP.

Foram convidados a participar nesta competição internacional jovens dos nove países de expressão portuguesa: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

Constituem a Comissão organizadora: Sílvio Gama (Universidade do Porto), Luís Merca (Instituto Politécnico de Tomar), Maria do Rosário Pinto (Universidade do Porto), José Carlos Santos (Universidade do Porto), Joana Teles (Universidade de Coimbra). SPM e CPLP




Ilha do Príncipe - IV Congresso Internacional de Educação Ambiental dos Países da CPLP


Está a realizar-se na ilha do Príncipe no arquipélago de São Tomé e Príncipe, entre os dias 18 e 21 de Julho de 2017, o IV Congresso Internacional de Educação Ambiental da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). O congresso tem como objetivos:


I. A promoção da divulgação de projetos de investigação científica, a troca de experiências pedagógicas, a partilha de projetos comunitários e o reforço das redes nas áreas da Educação Ambiental para a Sustentabilidade, Cooperação e Desenvolvimento;

II. Promover a cooperação entre atores educativos e técnicos das comunidades lusófonas capacitando-os para atuar ao nível das políticas de responsabilidade ambiental e de justiça social;

III. Reforçar o papel político da Educação Ambiental para a Sustentabilidade, considerando a educação e o ambiente como a chave para a democratização da nossa casa comum, no sentido de promover novas formas de governança em diferentes tipos de organizações políticas e da sociedade civil através de metodologias participativas e de decisão democrática.

A temática da Educação Ambiental vai ser debatida em torno de oito eixos temáticos: Identidade(s) do campo e políticas públicas em Educação Ambiental; A Educação Ambiental na resposta às alterações climáticas e aos riscos e desastres ambientais; A Educação Ambiental nos equipamentos, interpretação e conservação; A Educação Ambiental no sistema educativo; As fronteiras da Educação Ambiental: ética, inclusão, género, paz e justiça; A Educação Ambiental na valorização socioeconómica das comunidades locais; A educação Ambiental nos saberes tradicionais e manifestações culturais-artísticas; A educação Ambiental-Educomunicação nas redes sociais e tecnologias de informação.

A programação do evento contempla a dinamização de atividades como minicursos, mesas-redondas, oficinas, apresentação de livros ou revistas e visitas a iniciativas e projetos locais.

O presidente da Comissão Especializada de Assembleia Nacional popular para o ambiente da Guiné-Bissau Mário Dias Sami anunciou que o país é candidato para acolher em 2019, o 5º Congresso Internacional de Educação Ambiental da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

"Nós também estamos aqui para apresentar a candidatura de Guiné-Bissau para organizar o V Congresso, e esperamos acolher pelo menos 250 pessoas nas nossas belas ilhas, especialmente na ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós," afirmou Mário Dias Sami. Baía da Lusofonia

Se pretende conhecer a vida selvagem da ilha do Príncipe veja o documentário seguinte:

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Suíça – Os portugueses são a esperança para o quarto idioma oficial

Os portugueses já são o maior grupo de imigrantes no cantão (estado) dos Grisões, no leste da Suíça. Importante mão-de-obra para a economia local, eles também ajudam a manter vivo o reto-romanche. Porém não são os adultos que irão salvar da extinção o quarto idioma nacional

A primeira impressão de familiaridade é o cumprimento que as pessoas se dão nas ruas de Scuol. "Allegra", diz uma jovem ao turista que acaba de chegar. Em português, seria algo "olá". Já pela manhã, as pessoas se cumprimentam com sonoro "Bun di". O que soa por vezes como português é, na realidade, o reto-romanche, o quarto idioma oficial da Suíça, um derivado do latim vulgar deixado pelos romanos nessa região após séculos de ocupação na Antiguidade.

Scuol é um bonito vilarejo alpino com apenas 4748 habitantes, dos quais um quarto são estrangeiros. Localizada ao pé da chamada "Janela do Engadin", uma cordilheira de altas montanhas localizada na região fronteiriça entre a Suíça e a Áustria, o lugar é conhecido como estância hidromineral e estação de esqui. Por isso os tradicionais casarões pintados de amarelo e decorados com afrescos no centro histórico se misturam com hotéis, inúmeros restaurantes, lojas de esporte e apartamentos de férias no seu centro.

Uma das características de Scuol é ser uma das comunas (municípios) onde a maioria da população ainda fala o "vallader", um dos cinco idiomas da família do reto-romanche, assim como outras comunas nessa região conhecida como Engadin baixo (Unterengadin). Muitas crianças aprendem primeiro o vallader antes do alemão. "Eu nasci em Ftan e só falava o reto-romanche em casa. Foi só a partir da quarta série que comecei a aprender o alemão e curiosamente com um livro chamado 'Alemão para estrangeiros", conta Flurina Plouda, professora escolar e coordenadora da Lia Rumantscha, organização suíça fundada em 1919 com o intuito de promover a língua e a cultura reto-romanche, em Scuol.

O idioma reconhecido oficialmente em 1938 como "língua nacional" está ameaçado. Cada vez menos pessoas o falam. No último censo, apenas 0,5% da população nacional declararam ter o reto-romanche como língua principal, o que corresponde a pouco mais de 40 mil habitantes. Em 1880 a proporção era maior: 1,4%. Segundo a Lia Rumantscha, as razões para o declínio são várias, mas principalmente o desenvolvimento econômico, a evasão dos jovens, a imigração e a influência da mídia seriam os principais fatores.

Reforço inesperado ao romanche: os portugueses

Porém muitos especialistas consideram que a imigração pode ajudar a frear o declínio do reto-romanche, especialmente vindo de países com línguas latinas como é o caso de Portugal. Nos Grisões vivem atualmente 10586 portugueses, o maior grupo de estrangeiros no cantão, 20% a mais do que há uma década. Em regiões como o Engadin, cada sétimo habitante vem de Portugal. O aumento deve-se em grande parte à entrada em vigor, em 2002, do acordo de livre-circulação com a União Europeia, que facilitou a vinda das famílias dos imigrantes e trabalhadores sazonais.

E como funciona a integração dos portugueses? "Pela forte proximidade do português com o reto-romanche, esses migrantes mais têm facilidade de aprendê-lo", considera Flurina Plouda. Todavia o maior potencial está nos mais jovens. "São essas crianças portuguesas, recém-chegadas na Suíça ou nascidas aqui, que aprendem na escola o reto-romanche e dão assim mais peso ao idioma."

Flurina Plouda também trabalha como professora na escola de S-chanf, uma comuna de 742 habitantes ao sul de Scuol. Nela, muitas crianças falam o português. Na 4a. série, três dos dez alunos são filhos de migrantes lusitanos. Uma delas, Juliana, 10 anos, conta que nasceu na comuna e fala o "puter", um dos cinco dialetos do reto-romanche. "É a língua e também na hora da pausa ou quando estou brincando na rua", conta. Como muitos portugueses, seu pai trabalha na construção civil e a mãe em um hotel da região. Mas não aprenderam o puter. "No trabalho eles falam italiano e em casa só o português".

Para Brigitte Thoma, professora na mesma escola, essa é uma situação comum. "As crianças estrangeiras já começam a aprender o reto-romanche no jardim-de-infância. Depois nas escolas elas já o falam fluentemente, pois até o terceiro ano as aulas e os livros escolares são todos dados em puter", afirma. Com quinze anos de experiência no magistério, ela também ajuda a integrar filhos de imigrantes recém-chegados. Assim percebeu um fenômeno. Se portugueses têm facilidade para aprender o reto-romanche, crianças de língua alemã ou outros idiomas levam mais tempo. A razão está em uma fraqueza do quarto idioma nacional e, possivelmente, o fator mais importante para seu declínio. "É o fato de sempre mudarmos do reto-romanche para o alemão ou até inglês quando alguém que não fala o nosso idioma, é um problema. Essa adaptação permanente às pessoas que vem de fora é a doença do reto-romanche."

Antônio Domingos, 11 anos, se considera integrado. Filhos de migrantes originários do norte de Portugal, ele participa do clube de futebol de S-chanf e seu melhor amigo é um suíço. Por ter nascido na comuna, fala perfeitamente o puter, assim como a mãe, que trabalha em um café ao lado da escola e já vive há duas décadas na região. O jovem português gostaria de se tornar policial, mas sabe que é preciso se esforçar. "Para mim o mais difícil agora é aprender o alemão", diz. O idioma mais falado pela maioria dos suíços é determinante para o futuro profissional dos jovens no cantão dos Grisões. E muitos infelizmente não chegam ao fim do caminho. O censo de 2010 mostrou que 63% dos filhos de imigrantes só completam a escola básica, o que lhes permite apenas o acesso às profissões mais básicas.

O peso do alemão cria temores nos falantes de reto-romanche. "Eu acredito que as crianças não vão mais esquecer o nosso idioma, porém nos perguntamos se elas irão escrevê-lo no futuro, pois estarão vivendo em um meio em que o alemão tem muito mais importância", reflete Flurina Plouda, sua professora.

Portugueses veem o futuro na Suíça

Essa importância é demonstrada pelos registros estatísticos de comunas como Scuol. Se em 1860, entre 75% e 90% dos habitantes declaravam ter o reto-romanche como língua principal, em 2000 já caiu para menos de 50%. Segundo um estudo da Lia Rumantscha, a principal razão é o turismo. "De fato temos muitos turistas vindo de países de língua alemã, mas também imigrantes que chegam em Scuol para trabalhar nos hotéis e restaurantes, dentre eles muitos portugueses", revela Florineth Andri. Mesmo sem dominar o reto-romanche, o administrador comunal (uma espécie de vice-prefeito) considera muito boa a integração dos portugueses. "São pessoas muito esforçadas, que vem com seus filhos para viver na nossa comuna e trabalhar."

De 4.748 habitantes, pouco menos de um quarto (23%) dos habitantes de Scuol é de estrangeiros. Desses, 425 vêm de Portugal. Manuel do Nascimento, 32 anos, originário de Viseu, chegou em 2011. "Vim à procura de uma vida melhor. Em Portugal cortava madeira. Quando a situação por lá apertou com a crise, um irmão que já estava a viver no país me chamou. Passei seis anos em Friburgo e então decidi me juntar a minha namorada, também portuguesa", conta. Em Scuol já trabalhou na construção civil e hoje está empregado em uma empresa de limpezas.

Ao seu lado, a namorada. Marina da Silva, 25 anos, pertence à primeira geração de portugueses nascidos na comuna. Os pais imigraram em 1982 e hoje tem quatro filhos vivendo na Suíça. Ela se sente dupla-cidadã. "Nasci aqui e falo o reto-romanche. Depois de terminar a minha formação de secretariado, fui contratada para trabalhar na Secretaria de Turismo de Scuol. Em casa os dois falam português, mas ela faz questão que seu futuro esposo melhore os conhecimentos de reto-romanche. "Falar o idioma local é importante para a integração e também para o seu futuro profissional". Os dois não tem planos de retornar à Portugal. "É um país bom para passar as férias, mas a nossa vida é aqui em Scuol."

Reto-romanche como decisão pessoal

A vontade de integrar os portugueses na comunidade reto-romanche é tão grande que a Lia Rumantscha decidiu em 2010 lançar uma oferta especial para eles. O curso "Piripiri" ensinava reto-romanche para trabalhadores portugueses. Flurina Plouda desenvolveu e aplicou os cursos. Apesar do sucesso inicial, apenas sete foram oferecidos, sendo que o último em 2014. O motivo do não prosseguimento foi a situação especial desses imigrantes. "Nas empresas que eles trabalham geralmente falam italiano ou alemão com os colegas. Assim muitos não acham tão importante aprender o reto-romanche", justifica Plouda.

Já imigrantes como Helena Hinden-Cardino, 51 anos, consideram dominar o reto-romanche a única forma de ter sucesso na Suíça. Essa portuguesa originária da Serra da Estrela chegou na Suíça aos 20 anos para trabalhar em um hotel em Davos, conhecida estação de esqui. No início fazia limpeza dos quartos. Porém ela tinha outros planos na vida. "Eu já era costureira em Portugal e gostava muito de idiomas. Assim comecei a estudar à noite", lembra-se. Muitos colegas portugueses achavam estranho o comportamento. "Alguns foram até procurar o meu pai em Portugal para dizer que eu estava gastando dinheiro com livros ao invés de economizar. Por sorte ele não deu atenção a esses comentários."

Após aprender inglês, alemão e italiano, os chefes lhe propuseram empregos melhores. "Então comecei a trabalhar no bufê, em contato direto com os clientes", acrescenta Cardino. Foi quando conheceu seu marido, um suíço originário de Scuol, com quem casou-se em 1990. Hoje a portuguesa tem dois filhos de 23 e 27 anos, trabalha em um café na rua principal da comuna e também aluga casas de férias. Para ela, a realização pessoal ocorreu apesar de algumas características negativas da migração portuguesa. "Muitas pessoas do meu país diziam que meu casamento não daria certo pelo fato de meu marido ser suíço. Eu também não estava de acordo com esse hábito de ficar sempre nos seus clubes, só comendo a comida portuguesa em casa e não fazendo nada para conhecer o país, pois o único objetivo é economizar, construir uma casa em Portugal e passar as férias com um grande carro e roupas novas", critica.

Ao escutar pela primeira vez o reto-romanche, ela se sentiu em casa. "Percebia quase tudo, pois achava que era misture de italiano, francês e português", recorda-se. Para conversar com os vizinhos e novos amigos, decidiu aprender o reto-romanche. Para isso, Hinden-Cardino chegou a brigar com o marido. "Eu disse que a partir daquele dia só iria falar romanche com ele. Foi duro no início, mas acabou dando certo". Quando a primeira filha nasceu, só falou reto-romanche com ela. Com a segunda foi o mesmo. "Hoje uma trabalha como especialista em informática e a outra é funcionária comercial", conta com orgulho.

O esforço de integração é compartilhado por outros portugueses. Se em 2015, dos 11 estrangeiros naturalizados, 4 foram portugueses. Um ano depois já foram 21 pessoas, dos quais 11 portugueses. E para um estrangeiro em Scuol, uma das condições mais importantes para obter o passaporte suíço é mostrar o nível de integração. "E obviamente testamos o candidato para ver se ele fala o reto-romanche", diz o vice-prefeito Florineth Andri.

Situação demográfica no cantão dos Grisões (em 31.03.2017)

População total: 197 399
População estrangeira. 38 456
Portugueses: 10 586
Alemães: 7 953
Italiano: 6 980

Situação do reto-romano:
Segundo dados recentes (2015) do Departamento Federal de Estatísticas, 43914 pessoas declararam ter o reto-romano como principal idioma, o que corresponde a 0,5% da população total da Suíça. Ao mesmo tempo, 298728 pessoas declararam ter o português como principal idioma (3,7% da população total).

Curioso em relação à vida dos portugueses no cantão dos Grisões? A Televisão da Suíça Reto-Romana (RTR) produziu um documentário intitulado "Nós somos todos uma família - portugueses no Oberengadin". Veja aqui. In “Swissinfo.ch”


terça-feira, 18 de julho de 2017

Um romance de viés histórico

Um dos mais representativos e importantes romances do “jornalismo literário” no País — premiado e com grande repercussão na época do lançamento, mas há anos esgotado nas livrarias —, Os Vira-Latas da Madrugada retorna em segunda edição com ilustrações e um belo acabamento gráfico.  E podemos constatar que, infelizmente, essa lacuna de tempo não desatualizou o seu cenário e enredo: mais de três décadas depois ainda deambulam pelas praças, ruas e cais das nossas grandes metrópoles os mesmos vira-latas que Adelto Gonçalves, autor do livro, com refinada sensibilidade e aguda observação, pinçou da realidade e os colocou em movimento nas densas páginas que iriam emocionar toda uma geração. 
     
Mas, para que os leitores possam se situar e compreender o drama, é importante que falemos um pouco sobre o seu contexto geográfico e social.  E, naturalmente, sobre o seu autor, que viu de perto e até podemos dizer que sentiu na pele tudo que narrou.
    
O romance se desenrola no bairro Paquetá, mais precisamente no cais e nas zonas de prostituição do Centro de Santos, onde hotéis, boates e cabarés exibem pomposos nomes de cidades e países europeus, como Old Kopenhagen, Sweden e Oslo Bar, talvez para atrair os marítimos estrangeiros aportados. Área pobre e decadente, habitada na sua maioria por operários, comerciários e demais classes economicamente menos favorecidas, e ainda atraindo todos os deserdados do entorno, “mendigos, engraxates, prostitutas e jovens aprendizes de todo tipo de sobrevivência”, a região portuária, palco de grandes embates sindicais, promovidas pelo deposto governo Jango e, com o desfecho do golpe militar, seria, consequentemente, uma das regiões mais visadas pelo novo regime, com a caça e prisões desses elementos. E muitos comporiam o elenco do romance. Contudo, não se comprometeu. Seu compromisso não é com partidos políticos ou com ideologias. Seu compromisso maior é com a condição humana. E somente.

Através dos dados bibliográficos, sabemos que Adelto bebeu direto da fonte, e não através de relatos de terceiros. Ele não apenas ouviu falar ou leu sobre o que narrou. Não, não foi um mero expectador dos acontecimentos: testemunhou tudo “in loco”, entre o espanto e a indignação. Em artigo de jornal intitulado “O golpe visto da janela da minha casa”, escrito décadas depois, ele contaria que, com 12 anos de idade, presenciaria um dos episódios mais importantes e dramáticos, pois morava de frente  para o prédio do Sindicato dos Operários Portuários de Santos.  Menino, sem entender direito o que estava se passando, ele assistiria, atônito, aos soldados de fardas azuis da Polícia Marítima cercarem o sindicato, enquanto seus membros, acuados, apenas espiavam lá de dentro, esperando uma contrarreação que nunca viria.

De repente, muitos gritos e a fumaça — talvez de uma bomba incendiária jogada lá dentro — subiu no ar. Minutos depois os soldados invadiriam o prédio, e os líderes sindicais, rendidos, deixariam as instalações em fila indiana, hostilizados por tapas e insultos de “comunistas de merda!”.  E, aqueles homens que decidiam os rumos da classe, tratados agora como meros bandidos, teriam que passar por um “corredor polonês”, esbofeteados até entrarem nas viaturas que os levaria direto para o navio-prisão atracado ali no estuário.

Revoltado com o que via da janela, e, sobretudo, por conhecer alguns daqueles homens que estavam sendo espancados — ele estudava em escola mantida pelo Sindicato dos Operários Portuários de Santos —, como se não acreditasse no que estava vendo, sairia de casa para conferir de perto. Talvez por isso, anos depois, narraria esses episódios com tanta verve e propriedade, com cenas e imagens tão fortes como essa que não resistimos em reproduzir: “No cais, os homens agora trabalhavam em silêncio e ninguém mais levantava a voz para reclamar algo. Aceitavam tudo passivamente: como uma forca no centro da praça principal de uma pequena cidade, aquele navio estava ali no meio do estuário a lembrar aos mais afoitos e aos incrédulos que os tempos haviam mudado”.

Na esteira de grandes autores humanistas, via Vitor Hugo, Dostoievsky, Dickens e— por que não? — o próprio Jorge Amado, como eles Adelto deixa vazar em cada página sua grande compaixão pelos excluídos, esses seres em carne e osso, dores e dúvidas, que arrastam suas misérias e paixões pelas ruas, beco e puteiros, sempre em busca de uma resposta para suas dores físicas e espirituais. A cada página é como se o autor suasse, sofresse e chorasse junto, acompanhando as desditas de cada um dos seus personagens. Como se arrancasse o asséptico leitor da sua cômoda cadeira e o arrastasse até o sujo — de lodo, fumaça e óleo  — cais, e o fizesse sentir no lombo a brisa gélida do mar, o cheiro da maresia, o suor, a inhaca de cada personagem — estivadores, sindicalista, cafetinas, putas ou meros vagabundos —,  toda essa gama dos malditos viradores de madrugadas.

No meio da arraia-miúda, no entanto, um vulto se destaca pela sua coragem e lucidez: é Marambaia, um marítimo que, sempre reivindicando direitos e melhores condições de trabalho, liderou no seu passado heróico doze motins, e agora, aposentado, ainda frequenta o Sindicato dos Portuários.  E mesmo como contraventor (apontador de jogo do bicho) é admirado e respeitado por colegas e vizinhos, tornando-se uma espécie de conselheiro na região. Contudo, numa roda de amigos, ao comentarem o destino dessa última geração, constatavam que todos viviam de subempregos, quando não, resvalando para a contravenção.  Só Cariri, que virou jogador de futebol profissional, conseguira vencer. Então, entre a galhofa e a indignação, Marambaia desabafa: “Êta país de merda! Pobre pra subir na vida só sendo jogador de futebol...” Poderíamos hoje acrescentar que, com a inversão de valores da mídia mistificadora, alguns falsos artistas e cantores sertanejos também aí poderiam ser incluídos como vitoriosos. O que, claro, em nada contribuiria para a melhoria dos nossos dias.

UM PRECUSOR NA DENÚNCIA AO REGIME MILITAR

Senão por tantas outras virtudes, o livro já teria o seu lugar ao sol pelo simples fato de ter sido, talvez, o primeiro romance-denúncia contra a ditadura militar, numa época em que todos nós ainda guardávamos, cuidadosos, certo distanciamento crítico, para abordar tão polémico tema. Adelto, estudante de vinte e poucos anos, não deu bolas para a voz da prudência e, tocado pela indignação e a intrepidez da juventude — talvez duas das maiores virtudes dessa bela fase da vida —, saiu na frente! Mas não fez panfletagem, como se poderia perfeitamente esperar de um jovem açodado e inexperiente. Esqueceu a pouca idade e fez romance de gente grande.  

Tomou, sim, o lado dos mais fracos, os deserdados, segundo as suas convicções, mas sem pregação político-partidária. O que, contudo, não evitou que alguém o taxasse de maniqueísta: colocando sempre os oprimidos como bons e os opressores como maus. Amado, Dostoievski e Zola também receberam tal pecha e isso em nada diminuiu o valor das suas obras. Homem de origem humilde (filho de pequeno comerciante), é perfeitamente natural, a nosso ver, a sua simpatia pelos “humilhados e ofendidos”, para usar uma expressão do grande mestre russo já citado a cima.

Ainda que não se pretenda um romance histórico — não se prende a datas nem fatos sequenciais —, de certa forma, não deixa de sê-lo, na medida em que retrata episódios reais da História recente do País e, enlouquecendo a cronologia, nos remete a um passado remoto, como as andanças da lendária Coluna Prestes, na qual Marambaia, que podemos considerar o protagonista do romance, teria militado; atravessa o governo Vargas, com as perseguições políticas do Estado Novo, onde o protagonista também amargaria detenções; passando pelo governo de João Goulart, e entrando pelos primeiros anos da ditadura militar de 64.

 MAS NEM TUDO SÃO FLORES

Para não dizer que tudo são flores, faremos aqui duas restrições. A primeira diz respeito aos parágrafos iniciais da segunda parte do livro, denominada “Segunda confissão”. O autor tenta fazer um levantamento histórico sobre a origem do nome Paquetá. E esse relato frio e pedagógico, tão fracionado, diferente do clima denso e fluido do livro, soa como um apêndice. Podia ser perfeitamente evitado.  Felizmente, ele pouco se estende, reconhecendo que é tarefa para um historiador, e não para um romancista. E o romance retoma seu inquieto e intenso fluxo.

Segunda restrição. Pareceu-nos que, vez por outra, o autor põe na boca e na mente dos seus personagens palavras e reflexões não totalmente condizentes com, digamos, seu nível cultural. Como seria o caso do personagem Quirino, meio vagabundo, meio cafetão, às vezes travestido de sindicalista.  Preso em flagrante numa operação em que transportava armas clandestinas, em seu interrogatório, desabafa aos inquisidores:  “Nunca acreditei na espécie. É o homem que não presta. Ideologia nenhuma vai mudar isso. Seria preciso começar tudo de novo”.

Para completar, poderíamos ainda citar suas filosóficas reflexões de delatar em relação ao amigo delatado: “(...) o velho tinha um passado de revolucionário, mas, agora, com mais de sessenta anos, não queria saber de mais nada — nem podia. Era bicheiro, contraventor, explorava a esperança do povo — que fim mais triste poderia ter um revolucionário? Para Quirino, já bastava a pena de vê-lo torturado por sua consciência”.  Reflexões de cunho existencialista como essas  não seriam estranhas ao delatado,  o velho Marambaia,  pensador que, nas horas vagas, é dado a anotações e discursos que deixaria para a posteridade. Mas não para o oportunista Quirino, homem prático e rústico, boa vida, preocupado apenas com a sobrevivência imediata.

Fechado o livro, o sentimento primeiro que nos vem é de alívio: não teremos mais qualquer responsabilidade sobre os caminhos e descaminhos dessa gente desamparada.  Mas logo, como um remorso, nos bate a frustração: não poderemos mais acompanhar o velho João de Angola a se arrastar pelas ruas do Paquetá, carregando sua sacola cheia de esculturas entalhadas em madeira; não mais poderemos conferir a aparição da bela prostituta Sula a exibir sua lascívia e inocência entre homens famélicos e frustrados;  não mais ouviremos  as predições do  velho Marambaia,  visionário anarquista que já visitou portos em Stalingrado, na Rússia, ou em Hamburgo, na Alemanha, e agora se esconde num canto do Estrela da Manhã, apontando para o jogo do bicho;  Peremateu, o  mágico argentino, alquimista e charlatão, que, para seduzir mocinhas indefesas e trapacear homens poderosos, desfia toda a sua gama de astúcia; Plínio, o eterno vagabundo — uma espécie de Carlitos patropi — e sua companheira Rosa, a mudinha angustiada que suspira pelo filho perdido para o mar; os três moleques — Pingola, Cariri e Gabriel — que, enquanto jogam porrinha na praça, tramam o assalto ao bazar da esquina; Teodorico, o velho profeta desvairado que carrega sempre um caixote debaixo do braço e, encontrando o primeiro ajuntamento de trabalhadores, já sobe no caixote para proferir seu intermináveis discursos... 

Bom, meus amigos: bem ou mal, o recado está dado. Se você quer um livro forte e comovente, por vezes terno, mas por vezes amargo, desses que uma vez lidos nunca mais será esquecido — vá até a livraria mais próxima, adquira ou encomende este romance. Agora, se você quer apenas um ligeiro entretenimento, uma coisa mais doce — e não pode tomar um copo de água com açúcar porque é diabético —, então compre qualquer um desses tons mais ou menos desbotados que andam aí pelas bancas... Wil Prado - Brasil


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Os Vira-Latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Marcos Faerman, apresentação de Ademir Demarchi, posfácio de Maria Angélica Guimarães Lopes e ilustrações e capa de Enio Squeff. Taubaté-SP: Associação Cultural Letra Selvagem, 216 págs., 2015, R$  35,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br Site: www.letraselvagem.com.br



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Wil Prado, jornalista, romancista, contista e crítico literário, é autor do romance Sob as Sombras da Agonia (Lisboa, Chiado Editora, 2016).

UCCLA - Lançamento do livro de Albertino Bragança

Ao Cair da Noiteé o título do romance de Albertino Bragança que será apresentado no dia 28 de julho, pelas 17h30, nas instalações da UCCLA.



A apresentação contará com as intervenções de João Viegas d' Abreu, assessor Parlamentar da Assembleia da República, Sheila Khan, investigadora da Universidade do Minho, e Inocência Mata, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Haverá um apontamento musical pelo cantor santomense Filipe Santo.

Biografia:

Albertino Homem dos Santos Sequeira Bragança nasceu em São Tomé e Príncipe, em 9 de março de 1944, tendo ali realizado os ensinos primário e secundário até 1963 e frequentado a Universidade de Coimbra (Faculdade de Ciências) entre 1964 e 1969.

Regressado ao país após a independência, a par dos diversos cargos diretivos a nível da educação, dedicou-se a intensa atividade cultural, tendo publicado, em 1985, a novela Rosa do Riboque e Outros Contos. Neste mesmo ano organiza, com a reputada poetisa Alda do Espírito Santo e a plêiade de jovens dedicados às artes e letras de S. Tomé e Príncipe, a União Nacional de Escritores e Artistas de S. Tomé e Príncipe (UNEAS), de que é Secretário-Geral. Presença ativa em eventos de carácter cultural, no país e no estrangeiro, foi o representante santomense às discussões atinentes ao Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa e teve intervenção preponderante nos preparativos inerentes à criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), de que é, desde 2006, Embaixador de Boa Vontade.

Exerceu, a partir de 1991, importantes funções partidárias, governativas e parlamentares.

Obras publicadas:

• Rosa do Riboque e Outros Contos - Novela, S. Tomé, 1985, Edições Gravana Nova, obra reeditada em 1997 pela Editorial Caminho, Lisboa, Portugal;
• Um Clarão Sobre a Baía - Romance, S. Tomé, 2005, edição do autor;
• Aurélia de Vento - Romance, S. Tomé, 2011, Edição do autor.
•Preconceito e Outros Contos - Edições Colibri, Lisboa, 2014.

Morada:

Avenida da Índia, n.º 110 (entre a Cordoaria Nacional e o Museu Nacional dos Coches), em Lisboa
Autocarros e Elétrico (Rua da Junqueira): 15E, 18E, 714, 727, 728, 729 e 751
Comboio: Estação de Belém
Coordenadas GPS: 38°41’46.9″N 9°11’52.4″W

Internacional - Transporte marítimo: cresce a concentração

SÃO PAULO – Quem acompanha o dia a dia do comércio exterior sabe que ocorre a nível mundial uma intensa concentração no mercado de transporte marítimo, deflagrada por uma nova onda de fusões e aquisições de uma empresa por outra, o que se tem dado especialmente entre as grandes armadoras que transportam contêineres.

Segundo dados da empresa de consultoria inglesa Drewry, a fusão entre K-Line, MOL e NYK, que resultou na nova Ocean Network Express (ONE), colocará este grupo em quinto lugar no ranking mundial de empresas transportadoras de contêineres, com capacidade para 1,7 milhão de TEUs (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés), à frente da Hapag-Lloyd, que se fundiu com a UASC, com 1,6 milhão de TEUs, e da Evergreen, com 1,3 milhão.

Embora a CMA CGM tenha adquirido a Mercosul Line, subsidiária brasileira da Maersk, esta armadora continua dominando o mercado, com 4,2 milhões de TEUS (ou 18,4% do total), seguida pela MSC, com 3,1 milhões de TEUs ( 13,5%). A CMA CGM, que vem expandindo seus negócios na América do Sul, ocupa a terceira colocação, com 2,4 milhões de TEUS (10,4% do mercado). A compra da Mercosul Line representou a décima segunda aquisição pela armadora desde  1996, quando a CMA comprou a estatal francesa CGM.

É de se lembrar que essas três armadoras, em 2005, detinham 26% do mercado global, mas hoje já controlam 42%. Em quarto lugar, está a chinesa CoscoCS, que se fundiu com a CSCL, com 1,8 milhão de TEUs. Ressalte-se ainda que a Maersk comprou a Mercosul Line há uma década, mas teve de deixá-la como concessão, negociando-a com a CMA CGM, para seguir com seus planos de adquirir a Hamburg Sud, que é líder no Norte da Europa e na América Latina e opera a armadora brasileira Aliança, líder no setor de cabotagem no Brasil e no continente sul-americano. Hamburg Sud e Aliança são responsáveis por 80% do serviço de cabotagem brasileiro, à frente da Log-In Logística.  

Em resumo: as 25 maiores operadoras de carga em contêineres do mundo (incluindo subsidiárias, afiliadas e coligadas) controlam mais de 65% de todos os navios porta-contêineres disponíveis para uso em serviços comerciais. Desde já, o setor alega que esse é um preço a pagar, já que os seus clientes teriam se favorecido durante anos de fretes desvalorizados. Essa seria a razão pela qual as grandes companhias de navegação teriam buscado saída nas fusões e incorporações de concorrentes.

Em função dessa concentração que só cresce, é provável que haja neste segundo semestre de 2017 um melhor desempenho dessas empresas de navegação, mas não é preciso ser especialista para concluir que uma das consequências desse fenômeno é que haverá menores opções para os exportadores/importadores na hora de reservar espaços nos navios. E, com certeza, maiores custos, diante da falta de concorrência mais acirrada. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br